Por Bianca Ben, 23/10/2025

Lembro bem: eram 600 pessoas chegando cedo, algumas ainda com o sol nascendo, todas com pastas cheias de documentos, identidade, CPF, carteira de trabalho — tudo físico, pesado, mas cheio de significado. O local? Um galpão em São Cristóvão, improvisado com o máximo de cadeiras que conseguimos reunir. Mesmo assim, a fila parecia não acabar. Começamos às 7h da manhã e fomos até as 21h, sem pausa para almoço, apenas lanches.
As vagas eram para Operadores de Serviço ao Cliente e Cabistas, antes mesmo da Serede existir — ainda tínhamos a concessionária Telsul Serviços S.A.. Naquela primeira semana, aplicamos testes técnicos, medimos altura e peso para o trabalho em campo, fizemos entrevistas e devolutivas. Na semana seguinte, tinhamos 150 pessoas em treinamento, conhecendo normas de segurança, recebendo EPIs, ouvindo o som da própria CTPS sendo carimbada. Finalmente, na terceira semana, estavam nas ruas, prontos para o trabalho.
Era tudo presencial, do começo ao fim. A gente conhecia o rosto de cada um deles, via o nervosismo nos olhos, sentia o cheiro de café correndo pelas salas. Nada era rápido, mas tudo era uma experiência muito viva e totalmente em tempo real.
E se esse mesmo processo acontecesse hoje?
Hoje, a inteligência artificial faria tudo em uma fração do tempo. A vaga seria publicada em segundos, atingindo o público certo em diferentes plataformas. Os currículos chegariam automaticamente filtrados por aderência técnica e comportamental e dentro de algumas horas teríamos possivelmente mais de 600 inscrições — lembrando que estamos falando de vagas operacionais. As entrevistas iniciais seriam gravadas, com análise de linguagem e expressões — tudo sem filas, sem deslocamento, sem papel. Os documentos seriam enviados e validados digitalmente, e o onboarding aconteceria em uma plataforma interativa, com vídeos, quizzes e acompanhamento em tempo real.
O que antes levava três semanas, hoje levaria de três dias à uma semana, talvez? — com eficiência, economia e precisão.
Mas será que ficou melhor?
A tecnologia nos poupou tempo, simplificou etapas e democratizou o acesso. O recrutador agora analisa dados e não pilhas de papéis. O candidato pode participar de processos em outras cidades, sem sair de casa. A triagem é mais justa, o retorno é mais rápido, e a integração é mais fluida. Mas, ao mesmo tempo, às vezes me pergunto: o que perdemos nesse caminho?
Aquela ansiedade boa da espera, o olhar trocado, a energia coletiva de quem acreditava que aquele dia poderia mudar sua vida — isso não cabe em um algoritmo. E me pergunto se os candidatos de hoje em dia se lembram dessa experiência, ou se tiveram essa experiência, quando vejo algumas reclamações sobre processos automatizados: Seria nostalgia? Qual será a régua de medida dos candidatos de hoje sobre processos seletivos automatizados versus a experiência de anos atrás, totalmente presencial?
E você? Já viveu (ou ouviu falar) dos processos seletivos de antigamente?… Acha que a inteligência artificial melhorou ou enfraqueceu o jeito de contratar e ser contratado? Algumas experiências hoje certamente não se parecem em nada com as experiências de antigamente! E eu, que vivi lá atrás esse processo seletivo intenso, sou suspeita de dizer que amo a inovação! Acho que ela tem cheirinho de humanidade quando se torna muito mais confortável para todos os envolvidos!